O Boato É Falso. A Frase, Porém, É Verdadeira
Não há evidência de que Flávio Bolsonaro pretenda retirar de Aparecida o título de padroeira do Brasil. Ele negou, a GloboNews corrigiu informação que ajudara a alimentar a história e a campanha levou o caso à Justiça.
Portanto, ponto final no boato.
Mas talvez seja justamente aí que comece a história interessante.
Porque Flávio efetivamente declarou que, eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Meses antes, na Marcha para Jesus, já havia anunciado uma “guerra espiritual” e dito que “o mal” seria expulso do governo.
Percebe o problema? Não é Aparecida, mas a ideia de que um presidente possa tomar posse imaginando receber, junto com a faixa presidencial, a escritura celestial do país.
O Brasil não pertence aos católicos, aos evangélicos, aos judeus, muito menos aos ateus - o Brasil pertence aos brasileiros.
Essa diferença parece pequena até conhecermos a Teologia do Domínio, a corrente segundo a qual a fé não deve apenas orientar a vida privada do cristão, mas disputar e ocupar os centros de poder da sociedade.
É nesse ambiente que eleição vira “guerra espiritual”, adversário vira “mal” e governo ganha ares de missão divina.
O boato sobre Aparecida é falso, mas ele prosperou porque encontrou uma pergunta já plantada pela própria retórica bolsonarista:
quando um candidato promete entregar o Brasil a Jesus Cristo, o que exatamente pretende fazer com os brasileiros que não assinaram a procuração?
Estado laico não é Estado contra Deus; é o Estado que impede qualquer homem de governar em nome Dele.
E talvez essa seja uma das mais belas invenções da democracia.
- Julio Benchimol Pinto



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