Parte Do Antipetismo Não É Sobre Perder Dinheiro; É Sobre Perder Distância
Felipe Nunes pôs o dedo numa ferida que a discussão política costuma tratar a marretadas.
Imagine dois brasileiros. Um tinha renda 20, o outro 5. Vinte anos depois, o primeiro tem 30 e o segundo, 15. Ninguém empobreceu, mas a distância entre eles caiu de quatro vezes para duas.
É aí que começa a sociologia. Status não é apenas ter; é também ter mais, chegar antes, ocupar espaços mais exclusivos, distinguir-se dos outros. Quando quem estava embaixo sobe, quem continua em cima pode não ter perdido um centavo - e ainda assim sentir que perdeu posição.
Pesquisas da Quaest encontram justamente esse ingrediente: grupos que se percebem estagnados convivendo com a percepção de que outros avançaram - e, mais revelador, julgando que esses outros não mereciam avançar. A literatura acadêmica encontra ainda relação entre ressentimento de classe, antipetismo e voto bolsonarista.
Mas dizer que “corrupção nunca teve nada a ver com isso” é trocar sociologia por panfleto.
Teve. Assim como tiveram economia, religião, costumes, segurança, identidade partidária e transformações sociais. Estudos recentes mostram que essas dimensões coexistem - e que o bolsonarismo encontrou apoio especialmente forte entre segmentos de maior perfil socioeconômico e regiões mais ricas.
A descoberta realmente incômoda é outra: políticas públicas não redistribuem apenas renda; redistribuem também status, acesso, reconhecimento e distância social.
E talvez nenhuma pergunta revele tanto uma sociedade quanto esta: quando os de baixo sobem, quem comemora - e quem sente que alguma coisa lhe foi roubada?
- Julio Benchimol Pinto



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