Vorcaro, O Delator De Schrődinger
Daniel Vorcaro acaba de produzir um pequeno milagre da física política brasileira: o mesmo homem pode ser fonte absolutamente confiável e mentiroso deslavado ao mesmo tempo.
Depende apenas de quem ele acusa.
Quando Vorcaro fala de Moraes, da PF ou de gente próxima ao governo Lula, a direita entra em êxtase: “ESCÂNDALO! DELAÇÃO BOMBA!”
Mas agora Vorcaro diz que R$ 5 milhões oficialmente doados por seu cunhado às campanhas de Bolsonaro e Tarcísio teriam sido, na verdade, contrapartida de um acordo político envolvendo Kassab e interesses empresariais ligados ao Master.
Pronto. O oráculo virou picareta.
Tem mais. Em mensagens apreendidas, Vorcaro escreveu sobre Nikolas Ferreira: “Esse Nikolas eu banquei todos os voos dele.” Nikolas admite ter usado avião de Vorcaro na campanha de 2022, embora diga que não sabia quem era o dono.
Calma. Nada disso prova, sozinho, corrupção de Bolsonaro, Tarcísio ou Nikolas. Kassab nega a acusação. Tarcísio também.
Aliás, é justamente esse o ponto: delação não é sacramento, delator não é evangelista, acusação não é condenação - vale para Bolsonaro, vale para Tarcísio, vale para Moraes, vale para Andrei Rodrigues, vale para o governo Lula.
A regra civilizada é quase revolucionária no Brasil: acusou? Investigue. Encontrou prova? Processe. Provou? Condene.
O que não dá é transformar Vorcaro em Moisés quando ele abre o Mar Vermelho contra o adversário e em Pinóquio quando o dinheiro começa a molhar os pés dos amigos.
O Banco Master talvez ainda revele muita coisa, mas uma já revelou: o problema do fanático brasileiro nunca foi a falta de provas, mas a direção para a qual elas apontam.
- Julio Benchimol Pinto



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