O Evangelho Segundo São Mendonça
André Mendonça descobriu uma nova bem-aventurança: “Bem-aventurado o juiz que não busca dinheiro, porque o dinheiro saberá encontrá-lo.”
O ministro já pregou que juiz “não pode ter a pretensão de ficar rico”. Disse também que dinheiro não é sua ambição. Aleluia.
Enquanto isso, o Instituto Iter, fundado por Mendonça depois que ele já estava no STF, descobriu uma vocação quase pentecostal para multiplicar contratos públicos: levantamento da Folha encontrou 68 contratações por inexigibilidade, somando R$ 11,5 milhões desde 2024.
Não estou dizendo que esse dinheiro foi para o bolso do ministro. Não foi isso que se demonstrou. Estou dizendo algo mais divertido: o juiz não deve correr atrás do dinheiro; basta fundar um instituto e deixar o dinheiro público correr atrás dele.
E então apareceu Daniel Vorcaro.
O banqueiro foi recebido por Mendonça não no STF, mas na sede do Iter. Antes disso, o advogado que fazia a ponte com Vorcaro apareceu acompanhando o ministro numa alfaiataria de luxo.
E os ternos?
Mendonça apresentou notas de R$ 26,4 mil e diz que pagou suas próprias roupas. Até aqui, não há prova de que Vorcaro tenha pago um botão.
Portanto, esqueçam o terno. O verdadeiro artigo de luxo parece ser o acesso. Porque terno qualquer um compra - desde que tenha R$ 26 mil sobrando.
Agora experimente conseguir uma conversa reservada com um ministro do Supremo, fora do Supremo, dentro da instituição privada fundada pelo próprio ministro.
Isso não prova corrupção. Prova apenas que, entre a prédica e a prática, apareceu um pequeno problema de alfaiataria: o discurso ficou apertado demais para os fatos.
E pensar que Mendonça ainda ensinou que bom juiz não deve querer ser estrela.
Concordo. Mas, se a estrela ajuda a dar “notória especialização” ao instituto que vende cursos ao Estado, talvez ela tenha apenas trocado o céu pelo prospecto comercial.
O juiz não deve buscar dinheiro; o dinheiro, aparentemente, já conhece o endereço.
- Julio Benchimol Pinto



Comentários