Um País Não É Herança De Família
Há uma diferença enorme entre eleger a direita e entregar a República a um clã. A democracia suporta alternância; o que ela suporta muito mal é concentração: a Presidência nas mãos de um projeto de extrema direita, o mesmo partido comandando as maiores bancadas do Congresso e, no centro de tudo, uma família transformada em dinastia política. A República começa a adoecer quando partido vira sobrenome e eleição começa a parecer inventário. O Brasil conhece esse vício. Já tivemos coronelismo, oligarquias, caudilhismo, personalismo e tutela autoritária. Mudam os uniformes, os púlpitos e os algoritmos; permanece a velha tentação patrimonial: tratar o Estado como extensão do grupo que chegou ao poder. Faoro reconheceria o cheiro. E há algo ainda mais inquietante. As democracias do século XXI raramente precisam ser assassinadas por tanques. Podem ser esvaziadas lentamente por governantes eleitos, quando Executivo, Legislativo, partido e militância passam a funcionar como peças de um mes...









