A Capital da Republica Dorme ou Finge?
Há algo de profundamente edificante na vida pública brasileira. Não é todo dia que se tem acesso a uma cena tão… espiritual.
Imaginem o quadro. Brasília. Lago Sul. Madrugada avançada. A capital da República dorme - ou finge dormir - enquanto numa mansão um banqueiro recebe o presidente da Câmara para uma reunião que atravessa a noite. Três da manhã. Três.
Segundo as mensagens obtidas pela Polícia Federal, Hugo Motta teria saído da casa de Daniel Vorcaro quase às três da madrugada. E saiu satisfeito. Queria saber de tudo no detalhe. Tudo. No detalhe.
Enquanto isso, em outro canto da história - que parece escrita por um roteirista com senso de humor -, a então namorada do banqueiro envia a mensagem que dá o tom místico da operação: Vou orar aqui.
Minutos depois vem a atualização celestial: Fizemos uma oração para você agora. Eu e Chanda. Eu e Chanda.
Nada de detalhes. O detalhe ficou para o presidente da Câmara. A oração ficou para o andar de cima.
É bonito ver o funcionamento harmônico da República. Cada um cumprindo seu papel institucional. O banqueiro explica. O presidente da Câmara pergunta. E Chanda intercede.
Uma divisão de tarefas quase litúrgica. De um lado, a investigação do Ministério Público sobre a compra de parte do Banco Master pelo BRB. De outro, encontros noturnos em mansões do Lago Sul. E, pairando sobre tudo, a proteção espiritual do grupo de oração doméstico.
Talvez seja esse o verdadeiro modelo brasileiro de governança. Quando os detalhes ficam complicados demais para a política, convoca-se a Chanda. Porque, afinal, reuniões que atravessam a madrugada podem até levantar suspeitas. Mas com oração… fica muito mais seguro.
Júlio Benchimol Pinto



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