A Enchente é real e o Teatro do Deputado Também

 Chuva torrencial em Ubá, Minas Gerais. Casas alagadas. Gente tirando sofá pela janela. Retroescavadeira abrindo caminho na marra. Bombeiro correndo contra o tempo.

E no meio do cenário… surge Nikolas Ferreira (PL-MG).


Sim. O deputado federal do Partido Liberal. O campeão de views. O fenômeno do feed. O homem que transforma qualquer assunto em corte de 30 segundos.


Segundo vídeos que circularam, a rua estava bloqueada enquanto ele gravava. Morador gritando: “Deixa a máquina trabalhar!” A máquina querendo passar. A lama não esperando roteiro. E o deputado, celular em punho, buscando o melhor enquadramento da tragédia.


É quase uma instalação artística involuntária. De um lado, trabalhador tentando empurrar entulho.

Do outro, político tentando empurrar engajamento. A retroescavadeira precisava de espaço; o algoritmo também.


O mais curioso? A turma que vive acusando adversários de “explorar tragédia” resolveu explorar… a própria presença na tragédia. É a versão contemporânea do político que arregaça a calça para posar na enchente - só que agora com filtro, trilha sonora e CTA implícito.


O Brasil vive calamidade climática; parte da classe política vive calamidade ética. E no cruzamento entre lama e marketing, sempre cabe um tripé.


Nada contra visitar área afetada; é obrigação. O problema é quando a prioridade deixa de ser o resgate e passa a ser o Reels.


No fim, a cena resume muito do nosso tempo:

cidade atolada, máquina parada, morador indignado e o deputado do PL pedindo silêncio para gravar.


A enchente é real; o teatro também.


      Júlio Benchimol Pinto

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