Filosofo e Sociólogo Jurgen Habermas

 Morreu Jürgen Habermas, no sabádo (14), aos 96 anos um dos maiores filósofos da democracia. Durante décadas ele fez algo raro: combateu frontalmente o antissemitismo intelectual que se disfarça de análise crítica.

Nos anos 80, quando historiadores alemães tentaram relativizar o Holocausto, Habermas entrou no debate público e desmontou a manobra. Chamou pelo nome: tentativa de normalizar Auschwitz. Para ele, democracia só existe quando certas linhas morais são inegociáveis - e o antissemitismo é uma delas.


Agora vem o detalhe curioso. Entre os tributos emocionados ao filósofo apareceu o de Jessé Souza. Disse que Habermas foi fundamental na sua formação intelectual e que o acompanhou em momentos decisivos da sua trajetória.


Bonito. O problema é que poucas semanas antes Jessé explicava o caso Jeffrey Epstein com uma teoria sobre “lobby judaico” e estruturas de poder judaicas por trás do escândalo.


Percebem o abismo? Habermas passou a vida desmontando exatamente esse tipo de raciocínio: a ideia de que problemas complexos do mundo podem ser explicados por conspirações judaicas difusas. Para ele, isso não é crítica social, mas a forma moderna de um velho veneno político.


Daí a cena involuntariamente irônica dos nossos dias: alguém reproduzindo uma narrativa típica do imaginário antissemita e, logo depois, prestando homenagem ao pensador que dedicou a vida a combatê-la.


É como elogiar um cardiologista enquanto se distribui cigarro na porta do hospital.


Julio Benchimol Pinto

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