Chamam Isso de Patriotismo

 Começou no Texas, no templo global da direita trumpista, e terminou com uma pergunta simples que ninguém ali consegue responder sem gaguejar.

O que exatamente vocês foram fazer lá?


CPAC


Flávio Bolsonaro sobe ao palco e resolve explicar o Brasil para os americanos. Não como país soberano, não como parceiro estratégico, mas como solução. Solução deles. Terras raras, minerais críticos, alternativa à China. O Brasil apresentado como estoque disponível na prateleira geopolítica de Washington.


No mesmo fôlego em que diz que não quer interferência estrangeira, pede “pressão internacional” sobre as eleições brasileiras.


É o sujeito que reclama de invasão de domicílio enquanto abre a porta e oferece café.


A plateia aplaude. Claro que aplaude. Eles não estão ali para discutir soberania brasileira. Estão para ouvir exatamente isso: alguém dizendo que o Brasil pode ser útil aos interesses deles.


Aí entra Eduardo Bolsonaro e entrega o segundo ato.


Diz, sem constrangimento, que está gravando vídeo para mostrar ao pai no Brasil. O detalhe incômodo: o pai está submetido a medidas cautelares que proíbem comunicação externa, inclusive por intermédio de terceiros.


Não é interpretação criativa. A vedação é explícita.


Então ficamos assim: de um lado, o Brasil oferecido como ativo estratégico num palco estrangeiro; de outro, a naturalização pública de uma possível burla de decisão judicial.


E ninguém ali vê problema. Pelo contrário: tratam como virtude.


O curioso é que essa turma passa o dia berrando “soberania”, “liberdade”, “Estado mínimo”.


Soberania, pelo visto, é discurso doméstico. Lá fora, vira argumento de venda.


Liberdade, aparentemente, inclui dar um jeitinho nas restrições judiciais - desde que o jeitinho seja filmado.


E Estado mínimo… bem, esse continua máximo quando o assunto é palco internacional, influência externa e aplauso gringo.


No fim, sobra uma cena meio patética: políticos brasileiros indo ao exterior pedir pressão sobre o próprio país, enquanto vendem suas riquezas como diferencial competitivo.


Chamam isso de patriotismo.


Lá fora, chamam de outra coisa.


    Julio Benchimol Pinto

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