Estamos Assistindo Um Espetáculo
Saí do DF Star anteontem. Hoje entrou Jair Bolsonaro, levado da prisão para a UTI com broncopneumonia. Confesso um alívio quase infantil por não ter cruzado com o personagem. Já basta encontrá-lo todos os dias no noticiário.
Mas o episódio tem algo de fascinante - no sentido clínico da palavra.
Há anos convivemos com uma figura política construída sobre uma ambiguidade permanente. O mito viril, atlético, que diz enfrentar sozinho “o sistema”, e ao mesmo tempo o corpo frágil, hospitalizado com frequência, cercado de médicos, laudos e cirurgias. O líder que promete guerra cultural permanente e o paciente que inspira pedidos de oração.
Essa oscilação não é um acidente. A antropologia política conhece bem esse tipo de figura. Clifford Geertz descreveu o poder carismático como um teatro simbólico em que o corpo do líder encarna a própria narrativa política. Max Weber falava do carisma como um vínculo emocional que dispensa instituições. Já Ernesto Laclau mostrou como o populismo constrói um significante vazio capaz de condensar afetos contraditórios.
Bolsonaro é exatamente isso, um significante elástico: forte quando precisa mobilizar,
frágil quando precisa despertar compaixão, ameaçador diante dos inimigos, vítima diante da própria base.
A teoria do discurso explica bem o mecanismo: o líder vira uma tela em que cada seguidor projeta aquilo que deseja ver.
O curioso é que a narrativa continua funcionando apesar das contradições evidentes: herói invencível, paciente recorrente, chefe de guerra, homem digno de pena.
Até quando o Brasil continuará vivendo dentro dessa ambiguidade quase literária: esse personagem ao mesmo tempo Rambo e paciente crônico, gladiador e convalescente, ameaça e piedade?
Porque mitos políticos costumam morrer quando as contradições ficam grandes demais ou quando o público finalmente percebe que está assistindo a um espetáculo.
Julio Benchimol Pinto



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