Verdadeira Família Tradicional
Bolsonaro está na UTI: pneumonia bilateral, broncoaspiração, antibiótico reforçado, risco real apontado pelos médicos - boletim médico sério, daqueles que fazem a família baixar a cabeça e falar baixo no corredor do hospital.
Enquanto isso, em Rondônia, o filho candidato sobe no palco e faz dancinha. Não é metáfora. A cena aconteceu mesmo. Flávio Bolsonaro pulando, sorrindo e celebrando o lançamento de palanques eleitorais. No mesmo fim de semana em que convocava apoiadores para oração e jejum pela recuperação do pai. Jejum para uns, coreografia para outros.
A explicação veio rápida: ele estava “levando esperança ao povo”. Pode ser. Só que esperança costuma andar de mãos dadas com alguma coerência mínima. Pedir jejum enquanto se dança no palanque é uma estética curiosa.
Mas a cena revela algo maio: a campanha não vai parar e a doença do pai virou parte do roteiro político. O bolsonarismo já percebeu que hospital também pode virar palanque: o leito vira símbolo, a oração vira mobilização, a comoção vira combustível eleitoral e o herdeiro político continua a turnê.
Há outro detalhe divertido nesse enredo. Enquanto o filho dança para a base, tenta acalmar o mercado prometendo economistas liberais no eventual governo: Roberto Campos Neto, Mansueto Almeida, Gustavo Montezano, Daniella Marques e até Paulo Guedes. Resultado: parte da ala ideológica do bolsonarismo já torce o nariz - quer um governo de fé, guerra cultural e cruzada ideológica, não de economista da Faria Lima.
No meio dessa confusão toda, o candidato dança. Talvez seja apenas falta de noção. Talvez seja cálculo político. Ou talvez seja só o retrato mais honesto possível do bolsonarismo em campanha: um olho na UTI e o outro no palanque.
Julio Benchimol Pinto



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