O Supremo Descobriu O Inquilino De Schrodinger

 

O caso Master alcançou aquele estágio delicioso em que todo mundo investiga todo mundo e ninguém sabe mais quem deveria estar investigando quem.


André Mendonça manda a PF aprofundar mensagens de Vorcaro e acaba chegando a Alexandre de Moraes.


Problema: juiz não é delegado. A PGR diz que Mendonça atropelou o sistema acusatório.


Moraes reage.


Problema: usa o Inquérito das Fake News, do qual é relator, para acusar justamente Mendonça - o ministro cuja investigação revelou fatos contra ele próprio.


Ou seja: Mendonça pode ter investigado demais; Moraes agora pode estar julgando perto demais.


Entra Paulo Gonet. Ele pede a nulidade da investigação de Mendonça.


Problema: Gonet também aparece nas mensagens de Vorcaro.


E eis que surge Fachin, presidente do STF, com a missão que nem Salomão aceitaria depois do almoço: decidir o que fazer com uma investigação possivelmente irregular que encontrou fatos possivelmente gravíssimos contra um ministro, contestada por um procurador citado nos próprios fatos e respondida pelo investigado por meio de outro inquérito que ele mesmo relata.


Kafka teria pedido moderação.


Juridicamente, porém, a saída não é tão misteriosa.


Se Mendonça virou delegado de toga, seus excessos devem ser anulados.


Se existem provas independentes contra Moraes, elas não evaporam porque Mendonça errou o caminho.


Se Mendonça deve ser investigado, ótimo - mas não por Moraes atuando como juiz de uma suposta perseguição contra o próprio Moraes.


E se Gonet aparece materialmente na história, talvez seja prudente que outro procurador cuide dessa parte.


Tudo levado ao plenário. Tudo às claras. E uma única régua.


Porque há três frases que o Supremo precisa conseguir pronunciar simultaneamente: Mendonça não pode ser delegado, Moraes não pode ser juiz da própria causa e nulidade processual não é certificado de inocência.


Se o STF conseguir fazer isso, continuará sendo tribunal. Se escolher apenas qual ministro proteger, vira facção de toga.


- Julio Benchimol Pinto

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