Quando Deus Entrou Na Politica

 

4. DEUS ABRIU A PORTA DO GABINETE

A política tem um problema para quem vive dela: é uma atividade terrivelmente mundana.


É preciso pedir voto, negociar apoio, disputar cargo, controlar partido, administrar dinheiro e derrotar adversários.


Mas existe uma solução maravilhosa: sacralizar tudo isso.


A antropóloga Tatiane Duarte encontrou no Congresso uma política evangélica narrada também como batalha espiritual.


O candidato deixa de ser apenas candidato; é “escolhido”. A candidatura vira “propósito”. A vitória significa que “Deus abriu a porta”. O adversário político pode virar inimigo dos valores cristãos. E uma disputa absolutamente terrena por poder adquire perfume de transcendência.


É uma tecnologia política formidável. Porque você pode discutir com um deputado; mais difícil é discutir com alguém que acredita ter sido escalado pelo Altíssimo.


E assim certas disputas sobre aborto, sexualidade, gênero, drogas ou educação deixaram de ser apresentadas simplesmente como divergências políticas legítimas; viraram batalhas entre bem e mal.


A democracia pressupõe adversários; a guerra santa fabrica inimigos.


Quando Deus entra na campanha eleitoral como cabo eleitoral, curiosamente, quase sempre acaba apoiando exatamente o candidato que o pastor já havia escolhido - mistérios da fé.


Continua.


- Julio Benchimol Pinto

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