Quando Deus Entrou Na Política
6. QUANDO A IGREJA CHEGA À RUA
E chegamos a Boa Vista. A Assembleia de Deus comemora 111 anos. Sua sede fica na Avenida Benjamin Constant. Seu aniversário ganhou data no calendário oficial do município. Seu presidente histórico, pastor Isamar Ramalho, disputa o Senado em 2026. Seu filho, deputado estadual, é seu primeiro suplente.
E, durante as comemorações, a Benjamin Constant aparece interditada diante da igreja. Não afirmo irregularidade alguma. Interditar rua para evento religioso pode ser perfeitamente legal, como ocorre com procissões, festas, shows, corridas e inúmeras manifestações.
A questão interessante aqui é outra. Olhe sociologicamente para a cena. Há algumas décadas, o pentecostal era o sujeito periférico de quem a elite brasileira ria. Hoje uma das principais avenidas do centro pode parar diante de seu templo.
Políticos procuram seus pastores, governos reconhecem suas datas, famílias pastorais disputam mandatos e candidatos presidenciais cortejam seu eleitorado - eis o tamanho da transformação estudada desde Paul Freston.
O pentecostalismo brasileiro não conquistou apenas almas; conquistou espaço público, reconhecimento, representação e poder.
Isso é legítimo numa democracia. O perigo começa quando representação pretende virar hegemonia; quando autoridade espiritual vira instrumento eleitoral; quando igreja, família e projeto de poder se tornam difíceis de distinguir.
Talvez a imagem perfeita dessa história esteja agora diante de nós. Não precisamos discutir quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete. A pergunta brasileira ficou mais interessante: quantos votos cabem dentro de um templo?
Muitos. E foi a política - não o Espírito Santo - que ensinou algumas lideranças a contá-los.
- Julio Benchimol Pinto



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