O Supremo Descobriu A Oração Cautelar
André Mendonça está sob fogo cruzado no STF. Há perguntas sobre investigação, competência, procedimento, imparcialidade.
E o ministro responde com quê? Com Direito? Não. Com “meus irmãos e minhas irmãs”, oração, família, Deus e bênção ao Brasil.
É uma obra-prima de transubstanciação política: entra uma crise institucional, sai um culto de sexta-feira.
A pergunta era: o ministro agiu corretamente? A resposta virou: orem por mim.
Percebam a engenharia.
Mendonça não diz que está sendo perseguido. Seria grosseiro. Ele apenas agradece a quem o está “sustentando”.
Não diz que é vítima. Apenas surge cercado de oração, família e provação.
Não acusa os adversários de perseguirem um homem de Deus. Deixa esse serviço para os fiéis.
É elegantíssimo: tira-se a discussão do processo e coloca-se no púlpito.
No Direito, atos precisam de fundamento. Na política identitária, basta produzir pertencimento. E “meus irmãos” é uma senha poderosa: antes de avaliar o ministro, reconheça o irmão.
Daí em diante, criticar uma decisão pode começar a parecer perseguição religiosa, questionar procedimentos vira ataque ao ungido e uma divergência entre ministros do Supremo ganha trilha sonora de batalha espiritual.
Mendonça tem todo o direito de orar, pregar e agradecer orações. O problema começa quando capital religioso vira escudo político para autoridade estatal.
Juiz não precisa parecer santo; precisa parecer imparcial.
E, sobretudo, quando o processo aperta, não existe recurso previsto no CPC chamado: Agravo ao Altíssimo.
- Julio Benchimol Pinto



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