A República Entrou Num Espelho - E Quebrou O Espelho

  



André Mendonça afastou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, acusando a inteligência da própria PF de monitorá-lo ilegalmente.


A resposta veio em bloco: onze diretores da PF manifestaram apoio a Andrei e colocaram seus cargos à disposição.


O número 2 da instituição assumiu interinamente dizendo que a PF não se deixará abalar por “ataques”.


E a AGU prepara reação contra Mendonça, sustentando possível invasão da competência presidencial.


Pronto. Agora temos o desenho completo da crise: Mendonça acusa a PF de ultrapassar seus poderes, a PF acusa Mendonça de atacar sua atuação institucional, a AGU acusa Mendonça de ultrapassar os poderes do Executivo e Moraes está no centro da história porque recebeu os relatórios sobre Mendonça.


É uma matrioska de conflitos institucionais: abre uma crise e tem outra dentro.


Mas permanece a pergunta que ninguém conseguiu fazer desaparecer.


Mendonça afastou Andrei porque, permanecendo diretor-geral, ele poderia interferir numa investigação que envolve a própria conduta.


Argumento razoável.


Então expliquem: se Andrei não pode comandar uma estrutura que investigará Andrei, por que Mendonça pode comandar um processo sobre fatos dos quais Mendonça se declara vítima?


Não é defesa da PF, muito menos de Moraes.


Se a PF fez arapongagem contra ministro, investigue-se. Se Moraes abusou, investigue-se. Se Mendonça abusou, investigue-se.


O que não existe no Direito é pecado compensatório: o abuso de um não santifica o outro.


Onze diretores ameaçando sair, AGU preparando reação, ministros do Supremo investigando ministros do Supremo e a PF sendo investigada pela PF por ordem de um ministro que diz ter sido investigado pela PF.


Orwell foi citado na decisão. Kafka, por enquanto, ainda não pediu direitos autorais.


- Julio Benchimol Pinto

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