Onde Estava Mendonça

 


A pergunta agora vale R$ 8,5 bilhões.

Em fevereiro, a Polícia Federal encontrou no celular de Daniel Vorcaro uma trilha sobre precatórios bilionários de interesse do Banco Master e registrou expressamente: aquilo “demandava aprofundamento analítico”. A frente envolvia um processo no STF que poderia servir de paradigma para negócios do banco. 


Depois descobrimos o tamanho do negócio: 12 processos, cerca de R$ 8,5 bilhões e um contrato de honorários de êxito que poderia chegar a R$ 427 milhões, ligado ao grupo que aparecia nas mensagens como “Turma do KN”, referência a Kassio Nunes Marques. Segundo o Metrópoles, esse material estava no HD enviado pela PF ao gabinete de André Mendonça em julho. 


E aqui começa a pergunta incômoda.


Essa trilha não recebeu ordem equivalente de aprofundamento. Em agosto, porém, Mendonça escolheu outro recorte do celular de Vorcaro e deu à PF 72 horas para investigá-lo. O resultado levou a Alexandre de Moraes. 


Para completar o quebra-cabeça, o próprio Mendonça já havia recebido Vorcaro pessoalmente, em março de 2025, para conversar justamente sobre precatórios. O ministro afirma que apenas o ouviu e depois votou contra o interesse defendido pelo banqueiro. 


Mendonça nega qualquer direcionamento e diz que o relatório de fevereiro não lhe foi formalmente remetido e que os autos correspondentes não passaram para sua relatoria.


Essa explicação precisa ser considerada, mas não elimina a pergunta:


Se para umas mensagens havia urgência de 72 horas, por que uma trilha de R$ 8,5 bilhões, que a própria PF dizia precisar de aprofundamento, não recebeu urgência semelhante?


Não é preciso condenar ninguém antecipadamente; é preciso apenas aplicar ao investigador a mesma regra que ele exige dos investigados: luz sobre tudo - sem recortes, sem escolhidos.


– Julio Benchimol Pinto

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