Série: O Macho Em Pânico
Feminicídio, poder e a guerra das masculinidades
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10 - LEGENDÁRIOS: A MONTANHA E O HOMEM QUE VOLTA
Os Legendários perceberam algo que muita gente ignorou: há homens sofrendo sem linguagem para dizer que estão sofrendo.
Solidão, vícios, casamento em ruínas, ausência paterna, fracasso profissional, incapacidade de pedir ajuda: a velha masculinidade ensinou o homem a suportar tudo calado e depois se espantou quando ele desabou.
O movimento criou para isso um poderoso rito contemporâneo de passagem: montanha, esforço físico, oração, confissão, fraternidade e pertencimento.
E aí está sua força sociológica. Num ambiente suficientemente viril para que ninguém tema parecer “menos homem”, homens choram, abraçam outros homens, confessam fracassos e prometem voltar diferentes. Isso pode produzir mudanças importantes: sobriedade, fidelidade, paternidade presente, responsabilidade e reconstrução familiar.
Mas há uma questão decisiva. Os Legendários falam em devolver ao lar o “herói e o caçador”. A linguagem da restauração sugere que havia uma autoridade masculina perdida que precisa ser recuperada.
E aqui começa a política. Quem define quem protege, quem provê, quem lidera e qual é o “homem ideal” já está propondo uma determinada ordem familiar e social.
A pergunta verdadeira começa depois da trilha: ele voltou mais afetuoso? Excelente. Mais presente? Melhor ainda. Capaz de dividir cuidado, dinheiro, decisões e poder com uma mulher igualmente livre? Aí houve transformação de verdade.
Faltam pesquisas independentes acompanhando esses homens depois do retiro. Testemunhos emocionam; ciência precisa medir duração, efeitos e limites.
Talvez a grande descoberta dos Legendários seja esta: o homem pode continuar forte depois de aprender a chorar.
A montanha dura alguns dias; a verdadeira aventura começa quando ele abre a porta de casa.
- Julio Benchimol Pinto



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