Ainda Há Tempo



Em março escrevi: não estou lhe pedindo amor por Lula; estou lhe pedindo horror à barbárie.

Hoje preciso dizer algo mais grave: não estamos mais discutindo o passado; estamos decidindo se ele voltará.


Bolsonaro foi condenado por tentar um golpe, mas o projeto que atacou a democracia não morreu - apenas trocou de candidato.


E democracias também morrem assim: em eleições, sob aplausos, quando homens livres entregam pelo voto a liberdade a quem já demonstrou desprezo por ela.


Nós vimos. Vimos um presidente atacar urnas porque podia perder; vimos militares discutindo maneiras de impedir a posse de um presidente eleito; vimos multidões diante de quartéis pedindo intervenção militar; vimos a Praça dos Três Poderes devastada; vimos gente rezando enquanto pedia golpe.


E agora querem que esqueçamos. Não esqueceremos. Não esqueceremos os mortos da pandemia enquanto o poder debochava; não esqueceremos a ciência tratada como inimiga; não esqueceremos mulheres, negros, indígenas, gays, professores e jornalistas transformados em alvos; não esqueceremos o 8 de Janeiro.


E, sobretudo, não esqueceremos que aquilo começou antes: uma mentira de cada vez; uma ameaça de cada vez; uma instituição atacada de cada vez; uma brutalidade de cada vez - até que o intolerável ganhou bandeira, hino, palanque e milhões de votos.


Agora o Brasil está novamente diante da urna.


Não lhe peço que ame Lula; não lhe peço que silencie diante de seus erros - peço apenas que responda: depois de tudo o que vimos, ainda sabemos reconhecer uma ameaça à democracia quando ela pede nosso voto?


Eu votarei criticamente: sem devoção, sem entregar minha consciência a político algum.


Mas votarei contra quem confundiu pátria com propriedade, fé com instrumento de poder e democracia com inconveniência descartável.


Porque governos passam, presidentes passam, partidos passam - mas a República precisa ficar.


Há momentos em que votar deixa de ser escolher um candidato e passa a ser escolher o país que existirá depois dele.


Este é um desses momentos.


Não lhe peço paixão; peço memória. Não lhe peço fé; peço lucidez.


Eu já escolhi o meu lado: democracia - sempre.


- Julio Benchimol Pinto

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