O Golpe Parou Num "Não"

 


Agora existe testemunho de dentro do cockpit.

Carlos Baptista Junior, comandante da Aeronáutica no governo Bolsonaro, resolveu contar em livro o que viu nos meses em que a democracia brasileira esteve perigosamente perto do precipício.


O título já dispensa anestesia: “Eu disse não!”


Baptista Junior relata reuniões no Alvorada e no Ministério da Defesa, discussão de medidas de exceção e apresentação de uma minuta destinada a impedir a posse de Lula. Recusou-se até a receber uma cópia.


E contou algo ainda mais devastador: o então comandante do Exército, general Freire Gomes, advertiu Bolsonaro de que poderia prendê-lo caso insistisse na aventura golpista.


Enquanto isso, o comandante da Marinha, Almir Garnier, segundo os depoimentos, colocou suas tropas à disposição.


Eis o detalhe que destrói anos de mitologia bolsonarista: o golpe chegou à mesa dos comandantes militares.


Faltou unanimidade entre os homens que tinham tanques, aviões e soldados para executá-lo.


Baptista Junior foi cristalino à Polícia Federal: se o comandante do Exército tivesse aderido, possivelmente a tentativa teria se consumado.


Depois veio o STF. Bolsonaro acabou condenado a 27 anos e três meses de prisão pelos crimes relacionados à trama golpista.


Agora vem o livro.


Imagino o esforço intelectual dos patriotas de WhatsApp para explicar que o comandante da Aeronáutica de Bolsonaro, o comandante do Exército de Bolsonaro, documentos, reuniões, depoimentos e uma condenação criminal são todos agentes secretos do Foro de São Paulo.


Vai faltar papel-alumínio.


A democracia brasileira sobreviveu também porque, na hora decisiva, alguns homens armados disseram simplesmente: NÃO.


- Julio Benchimol Pinto

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