O Agosto Negro De Putin

 

Há uma velha superstição política russa: agosto dá azar.


Em agosto de 1991, o golpe contra Gorbachev acelerou o fim da URSS. Em 1998, veio o calote financeiro. Em 2000, o Kursk. Em 2008, a guerra com a Geórgia.


Agora, agosto voltou.


A Rússia, uma das maiores potências petrolíferas do planeta, enfrenta filas em postos, racionamento e falta de gasolina. O governo proibiu exportações, flexibilizou padrões de qualidade e passou a importar combustível.


Sim, a Rússia de Putin está importando gasolina.


O problema não é falta de petróleo. É que drones ucranianos aprenderam onde dói mais: refinarias, depósitos, portos e centros logísticos.


Durante anos, Putin vendeu aos russos uma guerra distante: morria-se na Ucrânia; em Moscou, comprava-se pela internet.


Esse pacto está rachando. Ataques alcançam agora grandes centros de distribuição, o rublo enfraquece, a logística encarece e a guerra começa a aparecer no lugar mais perigoso para qualquer autocracia: na rotina.


Putin diz que está tudo sob controle. Claro. Governos autoritários costumam controlar tudo - até o momento em que precisam explicar por que uma superpotência energética tem fila para abastecer.


E, enquanto faltam combustíveis, sobra cadeia. Lev Shlosberg, um dos poucos políticos russos que ainda ousavam defender publicamente o fim da guerra, acaba de receber 11 anos de prisão.


A fotografia deste agosto russo é quase perfeita: um país que importa gasolina e exporta dissidentes para a prisão.


Talvez a famosa maldição de agosto seja apenas folclore. Mas Putin, por via das dúvidas, deveria olhar o calendário.


- Julio Benchimol Pinto

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