Mourão Provou I Golpe Tentando Negá-li

 

Hamilton Mourão resolveu defender o general Freire Gomes - e acabou produzindo uma pequena obra-prima da lógica bolsonarista.


Diz que não houve tentativa de golpe, mas também diz que Freire Gomes agiu corretamente ao resistir a Bolsonaro. Resistir a quê, general? Ao uso excessivo do ar-condicionado do Alvorada?


Mourão admite ainda que, depois da derrota, procurou Bolsonaro para pedir três coisas elementares numa democracia: que reconhecesse o resultado da eleição, mandasse retirar os acampamentos diante dos quartéis e fosse à posse entregar a faixa. Curioso. Em democracias normais, ninguém precisa implorar ao presidente derrotado que reconheça a eleição e mande embora gente que pede intervenção militar.


O mais divertido é que Mourão condena Braga Netto por ter chamado Freire Gomes de covarde. E por que Braga Netto o chamou de covarde? Porque Freire Gomes não aderiu. Não aderiu a quê? É aí que a narrativa começa a fumar.


Mourão quer uma definição de golpe parecida com desenho animado: só existe tentativa quando aparecem tanques na avenida, general de óculos escuros e trilha sonora de quartel.


Golpes modernos começam antes. Começam com descrédito eleitoral, fabricação de fraude, pressão institucional, minutas, procura por apoio militar e tentativa de impedir a transferência legítima de poder. Os tanques são o último capítulo.


Freire Gomes merece reconhecimento precisamente porque, quando chegou a sua vez de escolher, disse não.


E Mourão merece agradecimento. Acabou de explicar, melhor do que muitos inquéritos, por que aquele “não” foi tão importante.


- Julio Benchimol Pinto

Comentários

Postagens mais visitadas