Deus, Pátria, Família E Treta
O bolsonarismo finalmente encontrou um inimigo à altura: o bolsonarismo.
Eduardo Bolsonaro acaba de republicar um vídeo de Allan dos Santos descendo o sarrafo em Michelle Bolsonaro. E carimbou embaixo “Triste, mas verdadeiro.”
O pecado de Michelle? Segundo Allan, ter “pauta feminista”, “pauta de esquerda” e a perigosíssima mania de reclamar quando é maltratada por Flávio Bolsonaro.
Sim, chegamos a esse estágio civilizatório: uma mulher dizer que foi maltratada por um homem virou indício de esquerdismo.
Allan prefere Bia Kicis e Sebastião Coelho ao Senado, mas há apenas um pequeno inconveniente chamado eleitor: Michelle lidera a disputa no DF. No Datafolha, Michelle lidera com 19%, Leila 16%, Erika Kokay 12%, Bia Kicis 11%; Sebastião Coelho aparece muito atrás, com 3%. No Real Time Big Data: Michelle aparece com 25%, Leila do Vôlei com 17%, Bia Kicis e Erika Kokay com 15% cada e Sebastião Coelho com apenas 8%.
Ou seja, a patrulha ideológica está disposta a trocar votos por certificado de pureza. E Eduardo concorda.
O episódio é delicioso porque Michelle e Flávio tinham acabado de encenar a reconciliação pública. Ela apareceu sorrindo com ele e pedindo votos para sua candidatura presidencial. Durou menos que promessa de campanha.
O problema de Michelle é simples: ela adquiriu vida política própria - tem eleitorado, liderança religiosa, estrutura partidária e votos. Já não é apenas “a mulher de Bolsonaro”. E numa dinastia, autonomia é praticamente adultério político.
O patriarca está fora do jogo eleitoral e os herdeiros começaram a disputar o testamento ainda com o autor respirando: Flávio quer a Presidência, Michelle quer o Senado, Eduardo quer a ortodoxia, Carlos e Renan querem sabe Deus o quê.
Allan dos Santos distribui certificados de bolsonarismo legítimo e todos juram defender a Família. Talvez tenham levado o slogan a sério demais: Deus acima de todos e família contra família.
- Julio Benchimol Pinto



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