A Argentina Não Ficou Sem Negros; Aprendeu A Não Enxergá-los
Há um velho mito: quase não existem negros na Argentina porque morreram nas guerras e na febre amarela. A historiografia desmontou essa comodidade.
Na Buenos Aires colonial, africanos e afrodescendentes chegaram a representar cerca de um terço da população.
Então, para onde foram? Parte morreu em guerras e epidemias, houve miscigenação e milhões de imigrantes europeus alteraram profundamente a demografia.
Mas aconteceu algo mais interessante: o negro começou a desaparecer das categorias pelas quais a Argentina enxergava a si mesma - negros, pardos e mulatos foram sendo reclassificados; descendentes passaram socialmente à categoria branca; o Estado deixou de contar raça por longos períodos; a escola e a historiografia consagraram uma Argentina essencialmente europeia.
A imigração mudou a demografia, o nacionalismo mudou a memória e o resultado é extraordinário: uma pessoa negra nascida na Argentina pode ser presumida estrangeira, porque “argentino” passou a significar implicitamente “branco”.
E há uma ironia deliciosa: o país que dizia “aqui não existem negros” continuou chamando pobres e mestiços de negros e cabecitas negras - negro histórico sumia da fotografia, mas o “negro” social continuava bastante útil.
No Censo de 2022, apenas cerca de 303 mil pessoas declararam-se afrodescendentes ou com antepassados negros ou africanos.
Não é preciso inventar um genocídio para tornar essa história brutal: uma sociedade pode apagar uma população sem eliminar seus corpos - basta mudar as categorias, branquear a memória e ensinar gerações a olhar uma fotografia sem perceber quem foi retirado do enquadramento.
Os negros não desapareceram simplesmente da Argentina; a Argentina é que aprendeu a não vê-los.
- Julio Benchimol Pinto



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