Renan Descobriu Que Mulher Vota
Renan Santos tem um problema eleitoral chamado mulher.
Não porque as mulheres sejam um grupo misterioso, inalcançável, escondido nas florestas do eleitorado. É pior: elas são mais da metade dos eleitores, e votam.
Durante anos, Renan cultivou exatamente o personagem que prospera numa certa fraternidade masculina da internet: provocação como inteligência, grosseria como coragem, misoginia disfarçada de irreverência.
Já falou de viajar para “xavecar gringa”, tratando conquista como “game”. Já apareceu liderando coro com referência grotesca a estupro. Quando Malu Gaspar lhe perguntou se esse histórico não ajudava a explicar por que mulheres têm a impressão de que o grupo dele “não gosta de mulheres”, respondeu com uma gracinha: “Ou é um grupo que gosta muito de mulher.”
Aí está o problema inteiro condensado numa frase: gostar de mulher não é tratar mulher como cenário para performance masculina.
O MBL aprendeu a fazer política como mesa de bar transformada em algoritmo: o mais agressivo ganha o corte, o mais debochado ganha o clique, o mais insolente vira herói de rapazes que confundem transgressão com profundidade.
Funcionou.
Até chegar aquela inconveniência chamada eleição presidencial.
Porque eleição exige sair do cercadinho digital onde todo mundo ri da mesma piada. Exige falar com professora, médica, empresária, trabalhadora, mãe, estudante, aposentada - mulheres que não existem para validar a masculinidade de candidato algum.
Agora Renan tenta recalibrar o personagem: fala em violência doméstica, elogia mulheres, modera o tom.
É a velha descoberta da política profissional: o passado que dava engajamento também dá voto contra.
Renan não precisa aprender a “conquistar o eleitorado feminino”; precisa descobrir algo bem mais elementar: mulher não é público-alvo de macho esperto; é cidadã.
E cidadã tem uma característica devastadora para certos candidatos: memória.
- Julio Benchimol Pinto



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