Jesus, Vorcaro E O Cartórios Da República
Flávio Bolsonaro promete que, presidente, vai decretar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.
Calma, Jesus. Leia as letras miúdas antes de aceitar.
Flávio descobriu uma tecnologia antiga do poder: quando a biografia não produz autoridade moral suficiente, sacraliza-se a candidatura.
Religião deixa de responder “como devo viver?” e passa a responder “quem é dos nossos?”.
E a moral ganha uma elasticidade milagrosa. O adversário investigado é corrupto; o Bolsonaro investigado é perseguido. A suspeita contra o outro basta; para o próprio grupo, exigem trânsito em julgado, revisão criminal e parecer do arcanjo Gabriel.
Veja Daniel Vorcaro. Flávio chegou a minimizar a relação com o banqueiro. Depois apareceram mensagens, áudios e negociações milionárias para financiar Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. E Flávio chamando Vorcaro de “irmão”.
Isso não prova crime de Flávio. Mas há uma notícia desagradável para quem transforma Jesus em certificado eleitoral de moralidade: ética não começa onde termina o Código Penal.
O Jesus dos Evangelhos, aliás, tinha péssimos hábitos para certas campanhas: falava de dinheiro, de verdade, de ricos e pobres, de hipocrisia, de poder.
O Jesus eleitoral é mais conveniente: não pergunta por Vorcaro, não pede extrato, não escuta áudio - só aparece no palanque e funciona como atestado celestial de bons antecedentes.
Esse é o truque do nacionalismo religioso: transformar fé em identidade, identidade em superioridade moral e superioridade moral em voto - e ainda dividir o país entre “os de Deus” e os outros.
Só há um pequeno problema chamado Constituição. O Brasil é uma República laica. Flávio pode pertencer a Jesus. Eu posso não pertencer. E ambos continuamos brasileiros exatamente com a mesma dignidade.
Estado laico não expulsa Deus; expulsa o político da função de tabelião de Deus.
Portanto, Flávio pode entregar sua vida a Jesus, pode entregar a campanha, pode chamar Vorcaro de “irmão” - só não pode entregar o Brasil. A escritura não está no nome dos Bolsonaro.
- Julio Benchimol Pinto



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