O Estupro, Segundo Nikolas
Nikolas Ferreira acaba de oferecer ao Brasil uma pequena amostra do país que pretende legislar.
Perguntado sobre aborto, declarou-se contrário “sob qualquer circunstância”, inclusive estupro.
A mulher é violentada, engravida do estuprador e, segundo Nikolas, deve levar a gravidez até o fim. Depois, se não quiser a criança, pode entregá-la para adoção.
É uma solução extraordinariamente simples - sobretudo quando o útero é dos outros.
A adoção resolve quem criará a criança - não desfaz a gravidez, não elimina o parto, não apaga os riscos físicos, não remove da vítima a experiência de carregar durante meses uma gestação produzida pela violência que sofreu.
E Nikolas ainda brindou a discussão com a frase: “Ninguém tropeça em uma bicicleta e engravida.”
O mais perturbador nem sequer é sua convicção religiosa. Numa democracia, cada um pode considerar o aborto pecado, tragédia, crime moral ou obra do capeta.
O problema começa quando alguém transforma sua teologia em algema para o corpo alheio.
Porque Nikolas não está dizendo: “Eu jamais faria isso.” Está defendendo uma legislação que diga à mulher estuprada: “Você também não poderá.”
O estuprador já decidiu uma vez sobre o corpo dela; o projeto político de Nikolas pretende que o Estado decida a segunda. E ainda chamam isso de liberdade.
- Julio Benchimol Pinto



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