Quando Dá Gente É Manifestação; Quando Não Dá Vira Comício

 


A campanha começou e a primeira vítima foi a semântica.

 

Flávio Bolsonaro escolheu Copacabana, o velho palco das multidões do pai, para mostrar força. Vieram 8.900 pessoas, segundo a contagem independente da USP/Cebrap.


A explicação do líder do PL, Sóstenes Cavalcante, é deliciosa: “Não é manifestação; é comício.”


Pronto. Descobrimos a unidade oficial de medida do bolsonarismo: quando a praia enche, é a voz das ruas; quando aparecem espaços vazios, era apenas um simpático evento eleitoral.

No mesmo domingo, Lula voltou à Vila Euclides, berço de sua história sindical. O PT falou em mais de 40 mil pessoas - número partidário, portanto tratemos com a devida pinça. A Reuters estimou cerca de 20 mil; a AP, mais de 10 mil. Não houve contagem independente equivalente porque o sobrevoo de drones não foi autorizado.


Logo, nada de transformar 20.000 x 8.900 em placar de futebol. Mas a fotografia política existe.


Lula reuniu aparentemente mais gente e construiu uma narrativa: sindicalistas, mulheres, Janja, memória de Marisa Letícia e até aproximação com o eleitorado evangélico.


Flávio levou para Copacabana sobretudo o maior cabo eleitoral de sua campanha: o pai ausente.


E ainda apareceu a desculpa dos ônibus petistas. Curiosa democracia essa em que eleitor chegando de metrô é povo, de carro é cidadão e de ônibus perde misteriosamente os direitos políticos.


Comício não é pesquisa eleitoral e multidão não elege presidente por metro quadrado, mas campanha também é símbolo.


E escolher Copacabana para demonstrar que herdou a força de Jair Bolsonaro e depois precisar explicar por que Copacabana não estava cheia talvez não tenha sido exatamente a fotografia que Flávio imaginou para o primeiro domingo.


- Julio Benchimol Pinto

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