Deus Virou Coach
Um pastor da Lagoinha Alphaville explicou a pobreza. E Marx, Weber, Bourdieu e dois séculos de Ciências Sociais podem finalmente descansar.
O problema não é salário, herança, educação, desemprego, desigualdade, concentração de renda ou oportunidade - é a cabeça do pobre.
Segundo o pastor Pyero Tavolazzi, pobreza é uma “doença espiritual e mental”, e quem entende “o Reino e o Rei” não deveria continuar pobre.
É uma ideia extraordinária, sobretudo para quem já é rico, porque realiza um pequeno milagre sociológico: faz desaparecer a sociedade inteira e deixa apenas o pobre diante do espelho, procurando dentro de si a causa de não ter dinheiro.
Bourdieu chamaria isso de violência simbólica. Foucault talvez enxergasse o empresário de si mesmo. Eu chamaria de coaching com Espírito Santo.
A desigualdade vira mindset, a precariedade vira crença limitante, o desemprego vira falta de propósito e o sujeito que nasceu sem patrimônio, escola decente, contatos ou oportunidades descobre que seu verdadeiro problema estava na cabeça.
Melhor ainda: quem diagnostica a doença frequentemente conhece a cura - pregações, conferências, cursos, mentorias, livros, ofertas.
É um modelo de negócios quase celestial: transforma-se sofrimento social em defeito individual e depois se oferece tratamento para o defeito.
Se o fiel prosperar, a doutrina funcionou; se continuar pobre, faltou fé, mentalidade ou produtividade.
Uma teoria maravilhosa: nunca perde - quem perde é o pobre.
O cristianismo começou com um homem que dizia ser difícil um rico entrar no Reino dos Céus. Dois mil anos depois, conseguiram atualizar o software: difícil mesmo é o pobre entrar no Reino sem antes melhorar o mindset.
Jesus multiplicava pães; o neoliberalismo pentecostal multiplicou coaches.
- Julio Benchimol Pinto



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