O Delegado Que Sempre Está Por Perto

 

Há biografias funcionais que parecem escritas por um roteirista com gosto pela ironia.


Em 2020, o governo Bolsonaro montou o infame “dossiê antifascista”: um relatório sigiloso com informações sobre 579 servidores e cidadãos identificados com o antifascismo.


O caso virou escândalo. Foi parar no STF. E o Supremo acabaria considerando inconstitucional o uso da máquina estatal para produzir e compartilhar informações sobre pessoas por suas posições políticas.


Quem André Mendonça, então ministro da Justiça de Bolsonaro, colocou no comando da Diretoria de Inteligência responsável pela estrutura que produzira o relatório?


O delegado da PF Thiago Marcantonio Ferreira.


Precisão necessária: Marcantonio assumiu depois de o dossiê vir a público. Não há prova de que tenha sido seu autor.


Corta para 2026.


Mendonça agora é ministro do STF. E quem está em seu gabinete, assessorando-o justamente em processos criminais?


Thiago Marcantonio Ferreira.


Enquanto isso, Mendonça trava uma guerra de desconfianças com a Polícia Federal em investigações politicamente explosivas envolvendo INSS, Banco Master e Lulinha. O ministro teme vazamentos e restringe a circulação de informações.


E então aparece a deliciosa contribuição do destino para a literatura brasileira: segundo Octavio Guedes, a própria PF desconfia que um delegado lotado no gabinete de Mendonça esteja vazando informações sobre Lulinha.


Atenção: até agora é suspeita jornalisticamente relatada. Não há prova pública de vazamento nem confirmação de que o delegado suspeito seja Marcantonio.


E é justamente por isso que o fato documentado já basta.


O homem escolhido por Mendonça para chefiar a inteligência no Ministério da Justiça após o escândalo da vigilância de antifascistas reaparece, seis anos depois, no gabinete de Mendonça, no coração de investigações políticas ultrassensíveis.


No governo Bolsonaro, o problema eram servidores com “ANTIFA” nas redes sociais. No STF, o problema agora é descobrir quem está vazando o quê para quem.


A República brasileira tem dessas delicadezas: alguns personagens mudam de endereço; o roteiro é que se recusa a ir embora.


- Julio Benchimol Pinto

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