A Vice Caiu Do Bagageiro
Flávio Bolsonaro passou semanas prometendo uma mulher na vice. Procurou Tereza Cristina, sondou Daniella Marques, esperou Republicanos, União Brasil e PP. Todos preferiram manter distância regulamentar. No último dia do prazo, apareceu Alfredo Gaspar - convocado tão às pressas que, na véspera, ainda era candidato ao Senado em Alagoas e precisou comprar passagem de última hora para Brasília.
Foi menos uma escolha presidencial que uma operação de desocupação de vaga.
Gaspar deixou o Senado livre, Arthur Lira respirou aliviado, Valdemar Costa Neto fechou a conta e o bolsonarismo apresentou o improviso como estratégia nacional. Flávio chamou o vice de representante do “Nordeste de fato”. Curiosa definição para alguém retirado da eleição alagoana justamente para resolver um acordo entre caciques.
Eleitoralmente, a novidade empolga pouco. Gaspar tem reduzida projeção nacional, não aproxima a chapa das mulheres, não tranquiliza o mercado e chega acompanhado de assuntos que qualquer campanha preferiria guardar na gaveta: um pedido de investigação por suspeita de estupro de vulnerável, que ele nega, e uma controvérsia sobre R$ 6 milhões em emendas, cujo pedido de investigação foi arquivado pela PGR.
Enquanto isso, Michelle faltou ao anúncio. Segundo Damares, estava preparando o almoço de Jair Bolsonaro. A cena resume com extraordinária precisão o lugar reservado às mulheres na montagem da chapa: promessas no palanque, panelas nos bastidores.
O pai, em prisão domiciliar, pediu autorização a Alexandre de Moraes para receber os filhos no Dia dos Pais. O filho, isolado politicamente, recebeu de presente um vice escolhido na rodoviária eleitoral.
A campanha que prometia uma grande aliança terminou com passagem comprada em cima da hora, acordo paroquial, almoço no fogão e um candidato a vice que, até a noite anterior, concorria a outra coisa.
No bolsonarismo, até o improviso chega vestido de destino histórico.
-Julio Benchimol Pinto



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