O Petróleo Continua Venezuelano. E O Poder?
A história tem um senso de humor que humilha qualquer roteirista.
Durante um quarto de século, o chavismo fez do petróleo o sacramento da soberania venezuelana e dos Estados Unidos o Grande Satã imperialista.
Agora Delcy Rodríguez anuncia, triunfante, um acordo energético de 25 anos com os Estados Unidos, agradece a Donald Trump e Marco Rubio e abre caminho para Chevron, Repsol, Eni, Shell, BP e companhia ajudarem a transformar a Venezuela numa “potência energética”.
Até aí, capitalismo. Acontece nas melhores revoluções.
Mas vem a cereja petrolífera: Delcy garante que a Venezuela preservará sua soberania sobre os recursos naturais; Trump diz que os EUA conseguiram “controle majoritário” sobre mais de 65 bilhões de barris das reservas venezuelanas.
Que beleza. Caracas anuncia soberania; Washington anuncia controle.
E provavelmente cada um está falando de uma coisa diferente - razão pela qual seria prudente conhecer os contratos antes de escolher entre “libertação econômica” e “entrega do patrimônio”.
A Venezuela tem as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta e produz uma fração de seu potencial. Descobriu, depois de décadas de retórica revolucionária, uma verdade terrivelmente burguesa: petróleo enterrado é geologia; para virar riqueza precisa de capital, tecnologia, infraestrutura, mercado e instituições.
O acordo pode ser ótimo para os venezuelanos. Pode recuperar produção, gerar bilhões e reconstruir uma indústria devastada.
Mas existe uma pergunta maior. Quem decidirá quanto produzir? Quem operará? Quem financiará? Quem comprará? Quem controlará receitas e investimentos?
Porque soberania não é apenas ter o nome escrito na escritura do poço; é ter poder sobre aquilo que sai dele.
Chávez passou anos gritando: “Yankees, go home!” Um quarto de século depois, seus herdeiros parecem acrescentar: “…mas deixem os engenheiros da Chevron.”
A História não dá voltas; às vezes dá gargalhadas.
- Julio Benchimol Pinto



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