O Sofá Não Cabia No Elevador; O Brasil cabia Na Cena
Uma pastora, influenciadora com mais de um milhão de seguidores e pré-candidata pelo PL. Do outro lado, um entregador de móveis. No meio, um sofá que não entrava no elevador.
Segundo a Polícia Civil de Minas, Renata Vieira respondeu ao imprevisto com três tapas no rosto do trabalhador, uma mordida na perna e uma pedra arremessada contra ele. Testemunhas disseram que ele não reagiu: tentou se afastar.
Depois veio a segunda agressão, agora para a plateia digital. Ela o chamou de “bandido”, “vagabundo”, “canalha” e “oportunista maldito”. Foi indiciada por lesão corporal, difamação e injúria.
O episódio é quase uma miniatura do Brasil que o bolsonarismo soube explorar como ninguém.
Não porque todo bolsonarista agrida entregadores. Isso seria uma bobagem. O fenômeno é pior: Bolsonaro encontrou no porão histórico brasileiro um material político abundante - culto à força, prazer da hierarquia, desprezo pelo subalterno, moralismo seletivo e a velha certeza de que alguns nasceram para mandar e outros para baixar a cabeça.
Ele não inventou esse Brasil; deu microfone ao porão.
A grosseria virou autenticidade; a intolerância, convicção; o preconceito, liberdade; a humilhação, coragem; a brutalidade, força. E tudo embalado em Deus, pátria, família e bons costumes.
O mais simbólico é que a agressão física terminou, mas a violência continuou nas redes: uma pessoa com enorme poder de audiência contra um trabalhador anônimo. É o coronelismo com Wi-Fi.
O PL, registre-se, anunciou depois que não registraria sua candidatura. Fez o mínimo correto.
Mas fica a pergunta: como esse repertório de autoridade, moralismo, humilhação e força chegou a parecer material político promissor?
Talvez o sofá não coubesse no elevador, mas aquele Brasil coube perfeitamente no bolsonarismo.
- Julio Benchimol Pinto



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