O Cartório Celestial Do Pl
Michelle Bolsonaro protocolou uma emenda à Constituição diretamente no Céu: Deus teria “entregado a Terra aos homens de bem para governar”.
A revelação ocorreu durante uma gravação eleitoral do PL, ao lado de Flávio e de um retrato de Jair com faixa presidencial. O Altíssimo, pelo visto, agora despacha em comitê de campanha.
Em respeito aos fatos: Michelle também disse “homens e mulheres”. O recorte machista distrai da manobra maior: privatizar Deus, carimbar o PL como “do bem” e despachar os adversários para a ala suspeita da criação.
Flávio segurava o retrato do pai como quem recebe uma capitania hereditária com bênção pastoral. Michelle adaptou o Salmo 24, falou em “mãos limpas” e “corações puros” diante da imagem de um homem condenado por tentativa de golpe. O Salmo pediu vista. A gramática abandonou a sessão em “homens de bem governar”.
Depois, o pastor pediu a libertação de Bolsonaro e prometeu a “verdadeira democracia” após a vitória. Democracia, ali, é sacramento sujeito ao resultado correto.
A Constituição diz que todo poder emana do povo. Na liturgia bolsonarista, emana do patriarca emoldurado, passa ao primogênito por sucessão divina e chega ao eleitor apenas para reconhecimento de firma.
O PL figura como herdeiro, tabelião e testemunha.
Deus, prudentemente, não apareceu para assinar.
- Julio Benchimol Pinto



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