A Marcha Para Jesus no Rio de Janeiro Virou Uma Cena da Politica Brasileira
A Marcha para Jesus no Rio escancarou uma cena velha da política brasileira: a fé no palco, o voto no bolso e o pastor no microfone fazendo o serviço que o candidato, prudentemente, preferiu não fazer.
Flávio Bolsonaro faltou. Malafaia compensou no gogó. A ausência do candidato não despolitizou o evento; apenas mostrou que, quando a engrenagem já está montada, o ungido nem precisa aparecer. Basta deixar o sacerdote da campanha falar em nome do céu.
O problema não é religioso participar da política. Isso é democracia. O problema é transformar púlpito em comitê, fiel em eleitor cativo, Bíblia em santinho, culto em comício e divergência política em pecado.
A operação é conhecida. Primeiro, politiza-se a religião: o pastor organiza medos, ressentimentos e lealdades eleitorais como se estivesse apenas defendendo valores espirituais. Depois, religiosiza-se a política: o adversário vira inimigo de Deus; a eleição vira batalha espiritual; investigação vira perseguição; derrota vira fraude; Constituição vira obstáculo à profecia.
A fé, que poderia elevar a vida pública, vira instrumento de captura. A política, que deveria discutir governo, economia, saúde, educação, corrupção e instituições, desfila fantasiada de cruzada moral.
O político precisa do pastor para falar com milhões. O pastor precisa do político para ampliar poder, acesso, proteção e influência. É bênção por palanque, voto por acesso, moralidade pública por poder privado.
O resultado é ruim para a democracia e péssimo para a religião. A política empobrece. A fé se apequena. O cidadão vira rebanho. O pastor vira cabo eleitoral com microfone sagrado. O candidato vira ungido de ocasião.
E Deus, que deveria ser grande demais para caber em partido, acaba sequestrado por gente pequena o bastante para achar que o céu tem diretório eleitoral.
Julio Benchimol Pinto



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