Sou uma senhora de bem, viúva da ditadura, serva do Senhor e eleitorinha fiel do Mito, graças a Deus e ao zap da igreja.
E digo logo: religião na política só me incomoda quando é a religião dos outros. A minha pode subir no palanque, pedir voto, ungir candidato, expulsar demônio da urna eletrônica, transformar pastor em cabo eleitoral e chamar derrota de batalha espiritual. Isso não é exploração da fé, meus filhos. Isso é estratégia celestial com CNPJ, gabinete e verba indenizatória.
Magno Malta está certíssimo. O Brasil não tem problema de fome, escola, saúde, segurança, orçamento secreto, rachadinha, joia saudita, minuta golpista, tentativa de golpe, nem político usando crente como massa de manobra. O problema do Brasil é o capeta votando no adversário.
E eu, como cristã conservadora muito temente a Deus, acho lindo quando o povo troca Jesus por um patriarca de tornozeleira moral, ajoelha diante de político, chora por inelegível, reza por anistia de golpista e chama isso de fé. Idolatria? Que palavra feia. Prefiro devoção cívico-mitológica.
Porque Deus, como todos sabem, abandonou aquela mania antiga de justiça, misericórdia e verdade. Agora Ele trabalha com pesquisa eleitoral, motociata, live, camiseta verde-amarela e grupo de WhatsApp com áudio de pastor rouco.
E quem discordar é comunista, globalista, satanista, petista, feminista, esquerdista, iluminista e, em casos mais graves, alfabetizado.
A batalha espiritual é simples: de um lado, Cristo pregando humildade, compaixão e verdade; do outro, nós, os defensores da família, berrando por cadeia, golpe, arma, ódio e absolvição dos nossos santos de tornozeleira.
Mas está tudo explicado: quando a fé vira palanque, o púlpito vira comício. E quando o comício perde a vergonha, até o demônio pede transferência.
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*Este post é sátira política, feita por personagem fictícia, com finalidade crítica e humorística. Não constitui propaganda eleitoral, pedido de voto, apoio a candidatura, partido ou agente político, nem pretende simular fato real ou induzir eleitor a erro.
Julio Benchimol Pinto



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