Na Politica, Perder é Ruim, Mas Perder Sem Saber Que já Tinha Perdido é muito Pior
A cena do abraço entre Davi Alcolumbre e Jaques Wagner, logo depois da derrota de Jorge Messias no Senado, vale mais do que muitos discursos oficiais.
Messias não caiu por acidente, mas sim por contagem, articulação, ressentimento e poder. O placar, 42 a 34, foi devastador. Faltaram votos ao governo, e sobraram sinais de que o Senado já tinha decidido mostrar a Lula quem manda naquele território.
O detalhe mais cruel é que Alcolumbre, antes do resultado, teria dito a Wagner que Messias perderia por oito. Perdeu exatamente por oito. Em votação secreta, isso não é palpite; é mapa, controle, política mostrando a planilha antes do velório.
E aí vem a imagem: o presidente do Senado, que sabia o tamanho da derrota, abraçado ao líder do governo, que dizia esperar vitória. Quase uma pintura barroca da política brasileira: o algoz sorrindo, o aliado anestesiado, o indicado derrotado e o Planalto procurando culpados entre os próprios escombros.
A rejeição de Messias foi histórica. A primeira derrota de uma indicação presidencial ao STF em mais de 130 anos. Mas ela não fala apenas de Messias; fala de Lula, de Alcolumbre, do Centrão, do desgaste do STF, da oposição bolsonarista farejando sangue e de um governo que entrou numa batalha decisiva sem fechar a conta.
A escolha de Messias tinha lógica: advogado-geral da União, homem de confiança de Lula, perfil jurídico, trânsito com setores evangélicos. Mas, no Senado, currículo não vota sozinho; quem vota é poder organizado. E Alcolumbre demonstrou que, naquela Casa, o Planalto entrou pedindo licença e saiu carregando a derrota no colo.
Agora aliados culpam o ministro da Justiça, cobram Jaques Wagner, falam em traição, omissão, erro de avaliação. Pode ser tudo isso ao mesmo tempo. Mas há um fato mais simples e mais duro: o governo foi para o plenário achando que tinha votos; Alcolumbre sabia que não tinha.
A imagem do abraço fica como síntese perfeita do desastre: não foi cordialidade republicana; foi a fotografia de uma derrota administrada com precisão cirúrgica.
Na política, perder é ruim, mas perder sem saber que já tinha perdido é muito pior.
Julio Benchimol Pinto



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