Copacabana Virou, de Novo, a Maior Arena Pop do Planeta



Shakira não fez apenas um show no Rio; também fez uma demonstração de força cultural, urbana e política.

Dois milhões de pessoas diante do mar não são só plateia; também são uma cidade em transe, uma economia em movimento, uma imagem rodando o mundo e um lembrete incômodo: o Brasil, quando quer, produz escala global sem pedir licença.

Madonna veio como mito pop, Lady Gaga veio como fenômeno de fandom, mas Shakira veio como síntese latino-americana. Colombiana, cantando em espanhol, inglês e português, cercada por Ivete, Anitta, Caetano e Bethânia, transformou Copacabana numa embaixada sentimental da latinidade.

O Brasil costuma se comportar como ilha lusófona, meio de costas para a América Latina. Shakira fez o oposto: costurou Brasil, Caribe, axé, funk, MPB, pop global e memória afetiva numa mesma cena.

Isso também é política cultural. Hotel cheio, restaurante cheio, ambulante vendendo, turista filmando, imprensa internacional repercutindo. Cultura não é enfeite; é economia, imagem, pertencimento e poder.

Claro, o mesmo Rio que produz essa beleza convive com desigualdade, violência e improviso. Copacabana, nesses momentos, vira vitrine e espelho: mostra o encanto e o abismo.


Mas seria burrice desprezar a potência disso. Nenhuma diva pop reforma o Estado brasileiro e nenhum drone derrota a desigualdade, mas, por algumas horas, o Rio mostrou aquilo que o Brasil tem de mais poderoso quando não sabota a si mesmo: mistura, corpo, música, alegria e uma capacidade quase indecente de transformar caos em espetáculo.


Shakira entendeu o Brasil, e Copacabana provou, mais uma vez, que estádio é para os tímidos.


Julio Benchimol Pinto

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