Pastor Evangélico, Cantor Gospel, Bolsonarista, Conservador de Palanque, Moralista Profissional

 Magno Malta não é apenas um senador que passou mal e gravou vídeo falando em “batalha espiritual”.  


Ele é um personagem inteiro da política brasileira: pastor evangélico, cantor gospel, bolsonarista de primeira hora, conservador de palanque, moralista profissional - um homem que fez carreira falando em Deus, família, crianças, pecado, inimigos e guerra contra forças obscuras.


Por isso o caso é tão revelador. Segundo boletim de ocorrência registrado por uma técnica de radiologia, Malta teria dado um tapa no rosto dela, entortado seus óculos e a chamado de “imunda” e “incompetente” durante exame no DF Star. Ele diz que sentiu dor intensa e que houve falha no procedimento. Que se apure tudo: prontuário, imagens, testemunhas, contraste, conduta da equipe e conduta do senador.


Mas uma coisa não pode ser enterrada sob aleluia de conveniência: dor não autoriza agressão, fé não purifica violência, mandato não transforma trabalhadora em serva, hospital não é púlpito.


O ponto mais obsceno está na palavra atribuída a ele: “imunda”. Essa palavra não nasce do acaso; vem de um repertório: é a língua do moralismo autoritário, de quem divide o mundo entre puros e impuros, ungidos e descartáveis, de quem fala em valores na tribuna, mas, quando contrariado, trata uma mulher trabalhadora como coisa inferior.


Aí a máscara cai: o poderoso sente dor e vira mártir, a trabalhadora relata agressão e vira detalhe incômodo. Ele ganha vídeo, oração e narrativa; ela ganha delegacia, exposição pública e suspeita.


Se confirmada a acusação, pode ter havido lesão corporal, vias de fato, injúria e dano. O Código Penal não se ajoelha diante de retórica religiosa.


A verdadeira batalha espiritual talvez seja esta: separar fé de blindagem, autoridade de abuso, dor de licença para humilhar.


Porque o problema do Brasil nunca foi excesso de oração; sempre foi a facilidade com que certos homens rezam em público e esmagam alguém em privado.


      Julio Benchimol Pinto


 


 

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