8 de Janeiro Não Precisa de Borracha, Precisa de Memória

 Depois de Sóstenes Cavalcante tentar transformar o 8 de janeiro em excursão cívica com excesso de entusiasmo, Jaques Wagner entrou no Estúdio i e devolveu um pouco de realidade ao debate.

Sóstenes disse que não houve golpe, não havia arma, não havia candidato à cadeira de Lula e, por isso, anistia geral seria “pacificação”. Curiosa pacificação: invadem Congresso, Planalto e Supremo; pedem intervenção militar; quebram patrimônio público; atacam instituições; depois exigem perdão constitucional, como se a democracia ainda tivesse de agradecer pela visita.


Wagner chamou a PEC da Anistia pelo nome certo: nefasta para a democracia. E foi além: anistiar agora estimula novas aventuras contra as instituições. A dosimetria era a anistia envergonhada. Travou no STF? Voltaram à anistia sem maquiagem: ampla, geral e irrestrita.


Também há a questão que o bolsonarismo tenta esconder na gritaria: Moraes suspendeu a aplicação da dosimetria em meio à controvérsia sobre o fatiamento de veto integral pelo Congresso. Gritar “ditadura do STF” não responde à pergunta básica: o procedimento foi regular ou foi gambiarra para salvar golpista?


Wagner ainda respondeu à tentativa de Flávio Bolsonaro de jogar o caso Banco Master no colo do PT. Devolveu no fígado: na Bahia, ninguém tem casa de milhões, loja de chocolate nem currículo de rachadinha. Foi o tipo de frase que não pede réplica; pede gelo.


E, sobre a derrota de Jorge Messias no Senado, Wagner admitiu a pancada. A indicação ao STF foi rejeitada por 42 a 34, num voto secreto que ele resumiu com precisão: convite à traição. O governo saiu ferido, Lula recebeu o recado, Alcolumbre mostrou força e o Senado lembrou que, em política, até aliado vota com punhal debaixo do paletó.


A sequência das entrevistas deixou tudo nu. De um lado, Sóstenes tentando transformar golpismo frustrado em injustiça penal. Do outro, Wagner lembrando que democracia não é mãe indulgente de adulto mimado com saudade de quartel.


O 8 de janeiro não precisa de borracha; precisa de memória, processo e consequência. Porque país que anistia ataque às instituições ensina o próximo golpista a tentar de novo, com advogado melhor, PEC pronta e cara de vítima.

  Julio Benchimol Pinto

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