Ciro Nogueira Virou Conhecido Distante
Ciro Nogueira descobriu uma maneira muito peculiar de defender o livre mercado: segundo a Polícia Federal, com mesada de R$ 300 mil a R$ 500 mil paga por Daniel Vorcaro, banqueiro do Master, além de viagens, hospedagens, restaurantes, voos privados e outras delicadezas da República dos Bons Costumes.
Ciro nega tudo, claro. No Brasil, a negativa costuma ser o primeiro andar do triplex.
O que está posto até aqui é uma sequência de coincidências tão elegante que chega a pedir elevador privativo: Ciro se aproxima de Vorcaro; uma empresa da qual ele é sócio entra numa operação societária com deságio milionário; depois ele compra uma cobertura triplex de R$ 22 milhões em São Paulo; e, 26 dias antes dessa compra, apresenta a chamada emenda Master, que ampliava de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos por depositante.
Tudo, evidentemente, em nome do interesse público. Esse velho senhor que, no Brasil, às vezes aparece de terno, gravata e conta remunerada.
Segundo a PF, a emenda teria sido redigida por gente ligada ao Banco Master e apresentada pelo senador praticamente como veio ao mundo. Em mensagens citadas na investigação, Vorcaro teria comemorado que o texto saiu exatamente como mandou.
Que beleza institucional: o banqueiro manda, o senador protocola, o risco escorre para o sistema financeiro, e o moralista de auditório chama isso de perseguição política.
Agora o entorno de Flávio Bolsonaro tenta pendurar o mau cheiro no PT, como se Ciro tivesse caído de paraquedas no Centrão e não fosse há anos um dos operadores mais íntimos do bolsonarismo. Quando era útil, era articulador; quando a PF bateu à porta, virou conhecido distante.
Mas há uma pergunta singela aos patriotas de ocasião: se o Banco Master também fez doação milionária à campanha de Bolsonaro, vocês vão defender Vorcaro com o mesmo ardor com que defendem qualquer um que use o crachá certo? Ou a moralidade seletiva também tem Fundo Garantidor?
Julio Benchimol Pinto



Comentários