A Jornalista Leda Nagle Resolveu Defender o Governador Zema

 Leda Nagle resolveu defender Zema com o argumento mais antigo do atraso brasileiro: “eu trabalhei criança e tenho belas lembranças”.



Pronto. Está aí a sociologia do armazém convertida em programa político.


Ela conta que, aos 9 ou 10 anos, atendia fregueses, pesava grãos e fazia pequenas entregas no comércio da família; e que guarda boas memórias. Ótimo. Que bom para ela. O problema começa quando uma lembrança pessoal vira salvo-conduto para relativizar uma conquista civilizatória.


Muita gente também cresceu sem cinto de segurança, sem vacina adequada, apanhando em casa, trabalhando cedo, largando escola, normalizando humilhações e chamando sobrevivência de “formação de caráter”. A civilização avançou justamente quando parou de transformar biografia em régua moral para o sofrimento dos outros.


A Constituição brasileira já permite aprendizagem profissional a partir dos 14 anos, com regra, escola, proteção e fiscalização. O que está em jogo não é impedir adolescente de aprender uma profissão, mas sim impedir que criança vire mão de obra precoce, barata e vulnerável - especialmente a criança pobre, porque filho de elite não “amadurece” entregando jornal. Ao contrário, faz curso de inglês, esporte, intercâmbio e estágio com sobrenome.


O jornalismo deveria ajudar a separar fato, nostalgia e propaganda. Mas parte dele preferiu virar assessoria sentimental do retrocesso.


“Sem drama”, diz ela.


Claro. Drama é quando a criança é dos outros. Quando é o filho da pobreza, sempre aparece alguém para chamar exploração de oportunidade, desigualdade de mérito e atraso de bons tempos.


Infância protegida não é frescura; é uma das poucas coisas que separam um país decente de um balcão de armazém com saudade do século XIX.

   Julio Benchimol Pinto

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