O Que Aparece Nessa Cena Não É O Patriotismo É Liturgia Politica


A bandeira vira manto sagrado. O Brasil vira corpo possuído. A democracia vira detalhe. E uma menina, aos prantos, repete a gramática que adultos lhe entregaram pronta: o país precisa ser “libertado”, o mal precisa ser expulso, a política precisa virar exorcismo.

É assim que o fanatismo funciona. Ele não começa gritando golpe. Começa chorando pela pátria. Começa confundindo fé com urna, Deus com partido, civismo com transe, liberdade com submissão a um salvador de estimação.


O mais revelador é ouvir esse discurso contra a “idolatria” num campo político que transformou um líder em mito, mártir, profeta, vítima universal, ungido de WhatsApp e santo de tornozeleira imaginária. Combater idolatria ajoelhado diante de político é uma forma bastante criativa de não perceber o próprio altar.


A menina, no fundo, é menos causa do que sintoma. O roteiro não foi escrito por ela. Foi escrito por anos de propaganda, ressentimento, púlpito transformado em palanque, família transformada em célula de guerra cultural e canal de internet vendendo apocalipse com monetização.


O Brasil precisa mesmo ser livre. Livre da seita que chama autoritarismo de liberdade. Livre da gente que abraça bandeira enquanto cospe na Constituição. Livre de quem vê comunismo em escola, demônio em ministro, fraude em eleição perdida e patriotismo em bajular torturador. Livre dessa fé política que não ilumina nada; só incendeia a República por dentro.


Porque quando a cidadania vira transe, a democracia não debate; ela sobrevive.

Julio Benchimol Pinto

Comentários

Postagens mais visitadas