Presidente Lula e Donald Trump se Encontram

 Lula e Trump não se encontram hoje porque descobriram afinidades secretas num retiro espiritual da diplomacia.

Encontram-se porque política internacional é isto: cálculo, interesse, pressão e sorriso protocolar com faca embaixo da mesa.


Trump precisa de minerais críticos, terras raras, alternativas à China e algum pragmatismo no quintal latino-americano. Lula precisa reduzir atritos comerciais, conter tarifas, abrir espaço para o Brasil na nova economia tecnológica e mostrar que a Casa Branca não é puxadinho hereditário da família Bolsonaro.


A pauta mais importante talvez esteja debaixo do chão brasileiro.


Terras raras, minerais críticos, tecnologia, baterias, defesa, semicondutores, energia limpa. O Brasil tem reservas estratégicas e, finalmente, começa a discutir uma política nacional para não repetir a velha coreografia colonial: cavar, exportar bruto, sorrir na foto e comprar de volta o produto refinado a preço de humilhação.


A Câmara aprovou o projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Há previsão de fundo garantidor, crédito tributário e estímulo ao processamento no Brasil. A proposta ainda vai ao Senado, mas já muda o tom da conversa.


O Brasil não pode entrar nessa nova corrida mundial como almoxarifado mineral de potência estrangeira. Precisa entrar como país com projeto industrial, domínio tecnológico, agregação de valor e soberania regulatória.


Os Estados Unidos querem segurança de suprimento. O Brasil deve querer mais: investimento, indústria, tecnologia, emprego qualificado e poder de barganha.


É aí que a reunião importa.


Não se trata de amar Trump, fingir que ele virou estadista civilizado ou ignorar seu histórico de truculência tarifária e oportunismo político. Trata-se de entender que o mundo não premia pureza retórica, mas sim quem sabe negociar sem ajoelhar.


Para Lula, uma reunião sem sobressaltos já desmonta parte da fantasia bolsonarista de que Trump seria uma espécie de interventor celestial da extrema direita brasileira. Para o Brasil, o desafio é maior: transformar cordialidade diplomática em vantagem estratégica.

     Julio Benchimol Pinto

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