O Baile dos Condenados

 


A posse de Kassio Nunes Marques no TSE já nasceu com roteiro de tragicomédia republicana.

Como manda o protocolo, foram convidados os ex-presidentes vivos. Até aí, nada demais. Cerimonial é cerimonial: tem a frieza dos formulários e a alma de um carimbo.


O detalhe é que entre os convidados estão Jair Bolsonaro e Fernando Collor, ambos condenados pelo Supremo e em prisão domiciliar.


Ou seja, para comparecer à posse do presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Bolsonaro dependeria de autorização do mesmo sistema judicial que ele passou anos atacando, desacreditando e tentando implodir.


A ironia dispensa legenda.


Imagine a cena.


Collor chegando com aquele ar de quem inaugurou o impeachment vintage.


Bolsonaro pedindo autorização para prestigiar a Justiça Eleitoral que ele acusava de fraude sem prova, atacava em lives e transformava em alvo permanente de sua máquina de suspeição.


Nunes Marques sorrindo.


O cerimonial conferindo lista.


A República fingindo normalidade, porque o Brasil é o único país em que a liturgia institucional consegue convidar para a festa quem tentou incendiar o salão.


Nada contra o protocolo. O protocolo é inocente. O problema é que, no Brasil, até o protocolo entra na sala tropeçando na história recente.


A posse no TSE virou um retrato perfeito da nossa comédia política: o tribunal que protegeu as eleições convida, por tradição, quem fez carreira atacando as eleições; o condenado pode querer ir; o juiz do caso pode ter de autorizar; e todos chamarão isso de normalidade institucional.


Nelson Rodrigues teria pedido royalties.


A República brasileira não perde o humor. Às vezes perde a paciência. Mas o humor, nunca.

      Julio Benchimol Pinto

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