Ciro Gomes Queria Ser Estadista. Vai Terminado Como Peça Auxiliar Daquilo Que Dizia Combater
Ciro Gomes é um dos casos mais tristes da política brasileira: inteligência abundante, vaidade maior ainda e juízo estratégico em regime de desaparecimento forçado.
Começou no PDS, herdeiro da Arena, o partido da ditadura. Passou por PMDB, PSDB, PPS, PSB, PROS, PDT e voltou ao PSDB. Não estamos falando de evolução política, mas sim de uma carreira que atravessou quase todo o sistema partidário brasileiro como quem troca de palanque para continuar se ouvindo falar.
Foi tucano, foi ministro de Lula, foi candidato contra o lulismo, posou de trabalhista, vendeu-se como alternativa ao bolsonarismo, atacou o PT com fúria quase religiosa e agora aceita aparecer embalado numa aliança com bolsonaristas no Ceará, com faixa juntando seu nome ao de Flávio Bolsonaro.
Há uma palavra antiga para isso: oportunismo.
Ciro sempre teve leitura, repertório e verbo. O problema é que, quando a realidade contrariou sua ambição, ele preferiu culpar o mundo, o PT, Lula, a imprensa, os eleitores, os aliados, os adversários, a história e, se deixar, até o garçom do restaurante.
O homem que queria refundar a República termina fazendo composição com o clã Bolsonaro para disputar o Ceará. É uma queda melancólica. Não a queda de quem foi derrotado por falta de talento, mas de quem foi devorado pelo próprio ressentimento.
Ciro queria ser estadista. Vai terminando como peça auxiliar daquilo que dizia combater.
Eis a tragédia: não lhe faltou inteligência, mas sim grandeza. E sem grandeza, inteligência vira apenas uma forma mais sofisticada de justificar o próprio naufrágio.
Julio Benchimol Pinto



Comentários