O Brasil viveu uma anormalidade gravíssima: ônibus faltaram a eleitores; Nunes Marques demorou a decidir; e quando Zanin prorrogou a votação, muitas urnas já estavam fechadas.
Tudo isso exige apuração rigorosa, inclusive das omissões da própria Justiça Eleitoral.
Mas Flávio Bolsonaro descobriu um escândalo ainda maior: perdeu.
E decidiu recorrer da vontade popular.
A ironia é irresistível: sua própria campanha também pediu votação até as 19h, em municípios de cinco estados.
Antes da derrota, prorrogar era garantir o direito de votar; depois, virou motivo para anular a eleição.
A coerência bolsonarista, aparentemente, encerrou o expediente às 17h.
Flávio ainda denunciou a suposta expulsão de fiscais do PL da sala-cofre do TSE. A Justiça Eleitoral desmentiu oficialmente a acusação. Os fiscais acompanharam a totalização dos votos.
Até Kassio Nunes Marques, indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro, reconheceu a segurança da apuração e proclamou a vitória de Lula.
4.430.191 votos de diferença.
É legítimo questionar decisões judiciais, é indispensável investigar irregularidades; mas alegações de fraude exigem provas, não inconformismo eleitoral.
O que preocupa não é o exercício do direito de recorrer, mas a persistência de uma cultura política que trata a derrota como uma afronta pessoal e a soberania popular como um inconveniente.
O pai perdeu e tentou impedir a transmissão do poder. O filho perdeu e anuncia que pretende anular a eleição. Muda a geração, mas persiste a dificuldade com a democracia.
A Constituição garante o direito de recorrer, mas não concede à família Bolsonaro o direito hereditário de vencer.
- Julio Benchimol Pinto

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