A Cerca Não Começa Com Arame

 

Dachau não começou cheio de judeus.


Os primeiros campos nazistas foram abertos sobretudo para comunistas, socialistas, social-democratas, sindicalistas e outros adversários políticos.


Primeiro, neutraliza-se quem pode resistir. Depois, amplia-se a categoria dos “indesejáveis”: vieram judeus, ciganos, homossexuais, Testemunhas de Jeová, “associais”.


A sequência não foi automática nem inevitável, mas a lógica é reconhecível: identificar, classificar, estigmatizar, excluir, punir.


Levitsky e Ziblatt explicam que democracias raramente morrem num único golpe. Morrem quando o adversário deixa de ser adversário e passa a ser inimigo; quando instituições viram armas; quando cidadãos começam a aceitar que alguns pertencem menos que outros.


O Brasil de hoje não é a Alemanha de 1933. Justamente por isso ainda podemos aprender alguma coisa com 1933.


A cerca de arame é o fim do processo. No começo, quase sempre há apenas palavras, nomes e listas.


- Julio Benchimol Pinto

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