Antes Dos Tanques
Os tanques de 1964 não surgiram espontaneamente na madrugada de 31 de março.
Antes deles houve anos de preparação política.
O cientista político René Dreifuss mergulhou nos arquivos e mostrou a atuação de empresários, banqueiros, tecnocratas, intelectuais e militares organizados em torno de estruturas como IPES e IBAD.
Havia propaganda, financiamento político, lobby, produção intelectual, campanhas contra o governo, articulação com parlamentares e militares.
A historiografia discute até hoje quanto cada força pesou no golpe. Não discute seriamente a existência dessa mobilização empresarial.
Sessenta e dois anos depois, João Moreira Salles publica na piauí os nomes de 26 integrantes da elite econômica que passaram por encontros com Flávio Bolsonaro e faz uma pergunta devastadoramente simples:
o que esses brasileiros sabem?
Porque eles conhecem a história do bolsonarismo, conhecem Ustra, conhecem o 8 de Janeiro, conhecem as sucessivas crises entre o bolsonarismo e as instituições.
Nada disso transforma jantar em golpe. Seria intelectualmente desonesto dizer isso.
Mas 1964 deixou uma lição menos confortável:
a normalização de projetos autoritários pode começar muito antes de qualquer ruptura - quando atores poderosos passam a considerar seus riscos toleráveis.
É aí que a pergunta da piauí deixa de falar apenas de 2026; ela começa a conversar com a história.
- Julio Benchimol Pinto



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