A Deputada Do Algoritmo
São Paulo acaba de oferecer à sociologia política um objeto de estudo com 23 anos, celular na mão e 1.956.238 votos: Eduarda Campopiano, a deputada estadual mais votada do estado.
Ela se apresenta como “a maior inimiga das feministas de São Paulo”. É mulher, jovem e chegou ao poder usando justamente algumas das liberdades políticas pelas quais gerações de mulheres lutaram. A História, definitivamente, desenvolveu senso de humor.
Também já agradeceu a Deus pela colonização e catequização dos indígenas, associando povos originários a canibalismo e enterramento de crianças. Séculos de história colonial resolvidos em poucos segundos de podcast.
Mas o fenômeno importante não é Campopiano; somos nós.
Antes, para chegar a quase dois milhões de votos, um político precisava construir partido, percorrer municípios, formar alianças, disputar ideias.
Agora pode construir audiência: o cabo eleitoral virou algoritmo, o comício virou corte, o programa virou bordão e a indignação do adversário também entrega engajamento.
Campopiano talvez seja menos uma anomalia do que um anúncio.
A política do século XXI descobriu uma fórmula extraordinária: quanto mais complexa fica a sociedade, mais lucrativo pode ser explicá-la em quinze segundos.
E a própria eleita já avisou: “a guerra tá só começando”.
Talvez, mas alguém precisa urgentemente avisar que Assembleia Legislativa não é podcast com verba pública.
- Julio Benchimol Pinto



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